Em recente
entrevista à editora da Revista Brasileira de Ciências
da Comunicação, publicada pela Intercom, o
representante da área junto à Capes, professor
Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, traça
um quadro bastante lúcido da pesquisa brasileira
na área da comunicação. Por um lado,
ele constata um grande crescimento no volume desta pesquisa:
em 1999, os treze programas de pós-graduação
da área que já funcionavam no país
declararam à Capes a realização de
476 projetos de pesquisa realizados por seus professores,
647 pelos doutorandos e 1489 conduzidas pelos mestrandos,
totalizando 2612 projetos em andamento.
Apesar
disso, Wilson Gomes ressalva que, não obstante estes
números, "um diagnóstico sincero sobre
a área constataria que em média estamos ainda
distantes da consolidação e sedimentação
do campo acadêmico e científico. Além
disso, mesmo naqueles setores onde o campo está mais
consolidado, dificilmente se pode creditar tal fato à
pesquisa em comunicação realizada na área
e no Brasil."
Sintoma
disto – aponta o representante da área na Capes
– é que o ensino básico de comunicação
no Brasil depende fundamentalmente de bibliografia estrangeira
ou proveniente de pesquisadores situados em outras áreas
de conhecimento. Desta forma, grande parte do esforço
de pesquisa de nossos doutores está em correr atrás
do que já foi pesquisado em outros locais, em vez
de perseguir conhecimento novo.
Wilson
Gomes constata também que não há uma
autêntica cultura de pesquisa científica na
área, na forma de compreensões, hábitos
e valores compartilhados. Não há parâmetros
comuns nem instâncias legítimas que selecionem,
acompanhem e avaliem a produção científica:
é pesquisador quem se declara pesquisador, e é
pesquisa o que esta pessoa declara ser pesquisa.
Neste
contexto, não existe pesquisa cumulativa. Ou se desconhece
o que foi feito antes, ou os dados são tão
pouco confiáveis que nossos pesquisadores estão
sempre começando do zero o conhecimento sobre um
tema ou especialidade. Por outro lado, quando publicam seus
trabalhos – e a maior parte das pesquisas declaradas
à Capes não são jamais publicadas –
não tem nenhum feedback, não recebem críticas
dos pares, é como se tivessem encerrado o assunto.
Os próprios
congressos da área não valorizam a pesquisa
de ponta. As palestras e mesas redondas são espaços
performáticos reservados às estrelas, para
falarem de temas do momento e de interesse de um público
amplo e não-especializado. As sessões dos
grupos de trabalho, onde presumivelmente as pesquisas serão
apresentadas e discutidas, colocam-se num nível hierárquico
inferior, dispõem de um tempo exíguo e precisam
compartilhá-lo entre pesquisadores sênior,
mestrandos e bolsistas de iniciação científica.
Por fim, a maior parte dos trabalhos apresentados são
ensaios, e não artigos baseados em dados de alguma
pesquisa científica, constata o representante da
área na Capes.
Não
foi por acaso que, quando convidado a apontar as maiores
contribuições brasileiras à comunicologia
latino-americana, Jesús-Martin Barbero lembrou-se
do pedagogo Paulo Freire e do antropólogo Renato
Ortiz, e de ninguém ligado à nossa comunicologia.
É mais um sintoma de que "temos muito caminho
ainda a percorrer", como adverte o professor Wilson
Gomes.
Se pensarmos
mais especificamente na pesquisa da sub-área de jornalismo,
no Brasil ou na América Latina, não apenas
confirmaremos todos os sintomas detectados por nosso representante
na Capes como ainda um outro bastante alarmante: a quase
totalidade dos produtos jornalísticos desenvolvidos
ou reformulados nas últimas décadas pelas
empresas de ponta da mídia brasileira basearam-se
em pesquisa estrangeira ou copiaram produtos estrangeiros.
Nem mesmo a pesquisa para o desenvolvimento de produtos,
considerada "menor" no âmbito acadêmico,
por se tratar mais de aplicação do que de
geração de conhecimento, teve algum resultado
relevante. O que nos leva a pensar que, pelo menos em relação
ao jornalismo, não apenas tenhamos caminho a percorrer,
como também seja possível que tenhamos perdido
a rota.
Neste
caso, reencontrá-la não será uma tarefa
simples: romper a inércia que conduziu nosso campo
de estudos à situação atual demandará
um esforço coletivo da sub-área de jornalismo
e um dispêndio considerável de energia para
superar uma série de problemas específicos,
além daqueles mais gerais que dificultam qualquer
forma de produção científica em nosso
país.
O
problema de identidade: o tabu da comunicação
A tabela
de classificação das áreas de conhecimento,
utilizada pelas agências de fomento, reflete um conceito
que ao longo da história incorporou dois tipos de
saberes técnico-científicos, embora em nenhum
momento faça esta distinção de maneira
explícita, apenas a sugira. De um lado, temos as
áreas originadas em disciplinas clássicas,
como matemática, química, física, biologia,
história, ciências sociais, filosofia, etc.
De outro, as áreas associadas a práticas profissionais
reconhecidas por demandar e reunir conhecimentos específicos
de nível superior, tais como medicina, direito, administração,
engenharia e educação.
A área
de comunicação obviamente faz parte do segundo
grupo, tanto que é classificada como "ciência
social aplicada". Quando pensamos no jornalismo em
particular, e não na comunicação social
em geral, fica ainda mais evidente esta vinculação
com uma prática social específica, com os
conhecimentos aplicados e necessários ao exercício
de uma profissão socialmente relevante, que demanda
uma arquitetura complexa de formação, só
atendida pela universidade.
No entanto,
esta vinculação da área da comunicação
às profissões que lhe deram origem é
questionada pela própria área, tanto no debate
sobre os seus objetivos quanto principalmente na sua prática
teórica e de pesquisa. Há setores, grupos
e escolas bastante fortes – senão os hegemônicos
- dentro da área da comunicação, que
expressam uma crescente autonomia em relação
a estas profissões, afastam-se delas como foco de
interesse em sua atividade científica e tem esta
posição respaldada pelas agências de
fomento, como Capes, CNPq e Finep, cujo corpo técnico
assessor é representativo do que ocorre na área.
Porém,
ao se desvincular de sua origem profissional, a área
de comunicação não consegue alcançar
a outra margem, não consegue se legitimar como disciplina
científica diferenciada, não concebe um corte
epistemológico inédito, não constrói
um corpo teórico original, não desenvolve
metodologias próprias, sequer consegue delimitar
o seu objeto de estudo. Subsiste, desta maneira, avançando
sobre os domínios das disciplinas vizinhas, como
antropologia, sociologia, política, psicanálise,
economia, filosofia, etc, sem submeter os resultados de
suas pesquisas ao julgamento de quem de direito –
os pares pertencentes aos quadros destas outras disciplinas,
que poderiam avaliar a propriedade e o rigor de sua utilização.
A esta
extrema liberalidade – pouco usual na atividade acadêmica
– confere-se um álibi que tudo permite e a
tudo absolve: a varinha mágica da interdisciplinariedade,
que uma vez acionada, justifica qualquer coisa. A área
da comunicação cria a interdisciplinariedade
sem objeto definido e, sobretudo, sem disciplina: à
margem de qualquer disciplina. Isto talvez explique porque
os cientistas sociais, pedagogos e filósofos continuem
sendo as principais referências teóricas de
nossa área, em vez dos comunicólogos: eles
foram formados em disciplinas de verdade.
O professor
Luiz Martino, da UnB, que coordena o grupo de Epistemologia
da Comunicação na Compós, tem apontado
com muita propriedade o fato da identidade do campo da comunicação
ser um tabu. É um tema de que normalmente se foge,
se evita, ou pelo menos se tangencia. Justamente para enfrentar
este tabu é que propôs a criação
do grupo, que promete um debate instigante mas que é
ainda muito recente para apresentar resultados palpáveis.
O Grupo
de Epistemologia da Compós pode se tornar um forum
privilegiado para delinear a identidade desta nova disciplina
científica que se pretende criar com o nome de comunicação.
Mas para isto vai ter que superar todos os obstáculos
que tem impedido que a questão venha à luz,
e que a mantém como um tabu. O primeiro dos desafios
é garantir essa discussão num plano racional.
Qualquer avanço no debate, por mais abstrato o nível
em que seja mantido, tende a levá-lo a tocar em questões,
problemas e interesses concretos, diante dos quais a racionalidade
costuma sucumbir sob a defesa emocional dos diversos pontos-de-vista.
Foi o que se viu acontecer há dois anos na disputa
entre jornalistas e comunicólogos pela definição
das diretrizes curriculares da formação profissional.
Hoje
se sabe que o debate que ocorreu em 1998-99 no Brasil -
aqui infelizmente desacreditado como uma mera disputa de
grupos pelo poder, e bastante descaracterizado por uma série
de brigas pessoais - estava também ocorrendo em outros
locais, como Estados Unidos, Austrália e Portugal,
e sobre as mesmas questões de fundo. O que nos leva
a supor que os problemas da área acadêmica
da comunicação, apontados por Wilson Gomes,
Luiz Martino e também pelo debate recente sobre o
ensino de jornalismo, em parte não sejam problemas
nacionais nem regionais, embora estes também existam,
mas sim questões mais gerais da área: mais
profundas e mais difíceis de resolver.
O
problema histórico: a dicotomia teoria-prática
A ruptura
entre teoria e prática na área acadêmica
da comunicação em toda a América Latina
é bem fácil de situar: ocorreu na década
de 70, a partir da atuação do Ciespal, que
acabou conseguindo transformar todas as faculdades de jornalismo
do continente em faculdades de comunicação
social, com o objetivo de formar não mais jornalistas,
nos moldes como estes profissionais são conhecidos
no mundo ocidental, mas um outro tipo de comunicador, mais
útil à política de contra-insurgência
adotada no continente pelos Estados Unidos, dentro do espírito
da Guerra Fria. Quando o Ciespal, na década de 80,
sai da área de influência norte-americana e
passa ter hegemonia de esquerda, afiançada pela social-democracia
européia, a idéia do "comunicador popular
de novo tipo" é mantida e aprofundada, principalmente
na produção teórica emanada da entidade,
embora com outro viés ideológico.
No entanto,
esta teoria não responde às questões
suscitadas pelas práticas profissionais a que as
escolas dedicam a sua formação: jornalistas,
publicitários, relações públicas,
etc. Estas práticas passam a ser reproduzidas sem
nenhuma reflexão a respeito, a não ser aquela
que as nega, propondo a sua substituição pelo
"comunicador de novo tipo", concepção
que a maioria esmagadora das escolas - no caso brasileiro,
a unanimidade - jamais colocou em prática.
A teoria,
então, libertada do compromisso com a prática,
vai definir arbitrariamente os seus caminhos, conforme os
modismos intelectuais importados em cada época e
as idiossincrasias dos seus produtores, diversificando-se
a tal ponto que o único critério para dizer
se uma pesquisa pertence ou não à área
da comunicação é a vinculação
de seu autor com um departamento ou faculdade de comunicação,
por mais esotérica que seja a questão, o tema
e a abordagem que se proponha a estudar.
Com
a consolidação da pós-graduação
na área, esta postura não só se institucionalizou
como passou a se reproduzir. Os primeiros doutores, que
definiram o que deveria ser a pós-graduação
em comunicação, eram todos teóricos,
já que a prática, apartada da teoria, não
investia na titulação de seus professores.
Quando estes últimos passaram a se integrar ao sistema
de pós-graduação, agora como alunos
dos teóricos que se titularam antes, eram incentivados
a seguir o mesmo caminho de seus orientadores, e muitos
passaram a desprezar o conhecimento da prática que
os introduzira na vida acadêmica. Desta forma, a prática
continuava mantida numa escala inferior da hierarquia.
Um outro
fator histórico importante para explicar esta dicotomia
foi a presença maciça de professores com formação
em outras áreas, na definição dos caminhos
teóricos da comunicação. Como qualquer
área nova, seu núcleo original foi composto
por cientistas oriundos de áreas afins que, por razões
acadêmicas, pessoais ou profissionais, em algum momento
de suas vidas interessaram-se pelo novo campo. É
inegável a contribuição trazida à
área por estes professores, ainda mais quando se
constata que a maior parte das referências bibliográficas
que utilizamos ainda hoje foi produzida em suas disciplinas
de origem. Muito da reflexão sobre nossa atual inconsistência
também se deve à formação e
à capacidade crítica que estes professores
trouxeram de fora de nossa área: basta dizer que
Wilson Gomes tem formação em Filosofia, Luiz
Martino em Sociologia e Nilson Lage em Lingüistica.
Mas é igualmente provável que o controle,
a longo prazo, exercido por professores oriundos de outras
disciplinas, com preocupações e interesses
os mais diversos, sobre uma área que não preza
o seu objeto de estudo, foi um dos fatores que conduziu
à reconhecida perda deste objeto.
Mais
uma vez, este problema crucial não é nacional
nem latino-americano. Por traz do Ciespal e das entidades
congêneres que moldaram a área acadêmica
da comunicação nos diversos quintais do terceiro
mundo, estava a Unesco, que definia as suas políticas
a partir de Paris, e que influenciou também a área
acadêmica nos grandes centros.
O
problema da legitimidade: a recuperação do
objeto de estudo
A perda
do objeto de estudo da comunicação é
uma questão que tem sido apontada por vários
autores desde o final da década de 80. No Congresso
de reconstituição da Alaic, realizado em São
Paulo em 1992, o venezuelano Antonio Pasquali e a brasileira
Anamaria Fadul chegaram a definir a década anterior
como "a década perdida" na pesquisa comunicológica,
uma vez que tinha se afastado tanto do objeto de estudo
que cada vez se sabia menos sobre a mídia no continente.
A questão
da perda do objeto de estudo, a primeira vista, pode parecer
que não diz respeito à pesquisa em jornalismo,
na medida em que esta sempre se definiu em torno da clareza
e da existência objetiva de seu objeto. No entanto,
nos atinge na medida em que esta perda não é
um extravio ocasional e inconsciente, na verdade é
uma rejeição da mídia enquanto objeto
digno de ser estudado. Nesta perspectiva, o jornalismo,
que faz parte da mídia, também será
menosprezado.
Cria-se
nas escolas uma escala de valores segundo a qual a crítica
da mídia, vista em sua exterioridade, é mais
importante do que a compreensão da mídia,
no seu funcionamento interno e na sua relação
com o contexto. As faculdades de Comunicação
do continente adotam uma postura que é típica
de suas congêneres da área de Letras, que não
formam escritores mas críticos literários.
No entanto, a área da comunicação não
consegue se livrar da tarefa de seguir formando jornalistas,
publicitários, e outros profissionais para a mídia,
até porque é esta função social
que justifica a sua existência. Consegue se livrar
apenas da obrigação de colocar a produção
científica a serviço do aperfeiçoamento
do ofício e da formação de profissionais
competentes.
Uma
vez estabelecida esta autonomia da produção
teórica em relação à função
social da universidade na área de comunicação,
a descaracterização do objeto é inevitável,
volatilizada na multiplicidade de interesses individuais
de seus pesquisadores, grande parte deles, como referimos,
originários de outras áreas acadêmicas
e sem interesse particular pela mídia. A proposta
de Jesus Martín-Barbero de abandonar os meios para
se estudar as mediações é seguida ao
pé da letra, principalmente no que se refere a sua
primeira proposição, a de dizer adeus aos
estudos de mídia, já que a segunda, de estudar
as mediações, permite qualquer interpretação,
conforme a idiossincrasia do pesquisador e os modismos intelectuais
importados. Já que as mediações estão
em tudo, a comunicação será qualquer
coisa que eu queira ou que valha uma estada em Paris.
A partir
deste momento, os estudos de mídia, e do jornalismo
dentro destes, passam a ser uma sub-área secundária
e quase marginal dentro das chamadas "ciências
da comunicação". Uma análise das
áreas de concentração, das linhas de
pesquisa e das disciplinas estudadas em nossos cursos de
pós-graduação deixa clara esta situação.
A posição de inferioridade dos estudos de
mídia e de jornalismo se reproduz com o desenvolvimento
da pós-graduação e se institucionaliza
com a criação das entidades acadêmicas
da área, dominando também os critérios
das agências de fomento à pesquisa, definidos
por consultores representativos do meio acadêmico.
A perda,
que na verdade é rejeição do objeto
de estudo, desta forma afeta também quem dela não
participa. O avanço dos estudos sobre o objeto -
seja ele a mídia ou o jornalismo - fica limitado
tanto com o desinteresse dominante na pós-graduação
quanto com a parcela que lhe é destinada dos recursos
já minguados de pesquisa. O resultado é que
muitos pesquisadores com potencial acadêmico e interesse
no objeto acabam cansando de navegar contra a correnteza,
mudam o foco de suas pesquisas e vão contribuir com
outras áreas. Persistir pode comprometer as melhores
oportunidades de carreira, e para toda teimosia há
um limite.
Por
outro lado, é alentador o fato de termos conquistado
algum espaço institucional, ainda que secundário,
através dos Grupos e Núcleos de Pesquisa em
Jornalismo das entidades acadêmicas, como a Intercom,
a Alaic e mais recentemente a Compós. São
espaços bem limitados no organograma das entidades
mas, como observou Wilson Gomes, também são
estes os destinados à toda a pesquisa de ponta: estamos
em boa companhia. O aspecto mais negativo desta situação
é que costuma significar tutela de fora, pelas forças
hegemônicas nas entidades, o que atrapalha, se não
impede, qualquer possibilidade de gestão autônoma
destes núcleos e grupos e limita, com critérios
alheios, o desenvolvimento científico das sub-áreas.
Na forma
como a área acadêmica da comunicação
está institucionalizada, o caminho natural dos estudos
de jornalismo talvez fosse o da extinção.
Mas ela não ocorre, porque o jornalismo é
um objeto de tanta relevância social, cultural e acadêmica
que sempre reaparece em estudos interessantes, seja na área
da comunicação, seja em áreas afins
como nas ciências humanas e da linguagem. Mas, se
a extinção não ocorre, a falta de legitimidade
nos traz um problema adicional de dispersão do conhecimento
produzido sobre jornalismo: grande parte da pesquisa é
feita e discutida em outras áreas e, mesmo nos congressos
de comunicação, mais da metade dos estudos
sobre jornalismo continuam a ser apresentados fora dos grupos
de jornalismo. As interfaces do jornalismo são muitas,
e os autores destes trabalhos procuram os grupos com mais
prestígio ou contatos mais interessantes.
Aliás,
a bibliografia de referência em teoria do jornalismo,
assim como a mais geral da comunicação, continua
sendo produzida fora do país e em grande parte fora
da área. Isto faz com que nem se adequem a nossa
realidade. O que nos traz um problema adicional: não
basta o objeto de estudo ter legitimidade para legitimar
nossa pesquisa própria. A conquista da legitimidade
científica, e a reivindicação do reconhecimento
acadêmico que dela deve recorrer, passa também
pela solução dos problemas relacionados à
forma como estamos estudando o objeto. É sempre bom
lembrar que as críticas aos problemas da produção
científica em comunicação, apontados
por Wilson Gomes, também se aplicam a nós.
O
problema da cientificidade: das perguntas à superação
do ensaio teórico
Paulo
Freire costumava enfatizar que todo conhecimento tinha por
trás uma pergunta, e criticava a pedagogia tradicional
por responder perguntas que não tinham sido feitas,
deixando em segundo plano as perguntas que os educandos
tinham para fazer. É essa postura pedagógica
- e a pedagogia, dizia Freire, é uma teoria do conhecimento
posta em prática - que dá espaço tanto
para a dicotomia teoria-prática quanto para a eventual
falta de sentido na teoria utilizada em muitas teses e dissertações
sobre jornalismo.
Quando
se lê os capítulos teóricos destas teses
e dissertações, normalmente os introdutórios,
a impressão que fica é que os mestrandos e
doutorandos estão pagando um tributo aos interesses
individuais de pesquisa de seus professores e orientadores,
muito mais do que buscando fundamentos pertinentes para
resolver o problema que a pesquisa propõe. As teorias
são então expostas como mera descrição
de conceitos, que nada acrescentam ao trabalho e, pelo contrário,
tornam-se um entrave ao desenvolvimento de qualquer metodologia
consistente. É o "balé de conceitos",
como diria Paulo Freire.
Como
somos educados na Universidade a reproduzir este balé
- e aí o problema não é apenas da área
de jornalismo ou de comunicação, embora em
nosso caso ele seja agravado por uma série de fatores
já expostos - dificilmente estudamos estas teorias
realmente, produtivamente. Dificilmente nos indagamos sobre
as perguntas fundamentais que as originaram e que elas vieram
a responder, e se estas perguntas são as mesmas nossas
ou se conservam o interesse ainda hoje, quando a ciência
já avançou em muitos pontos.
Recentemente,
num Congresso regional em Goiânia, ouvi um depoimento
do professor mexicano Guillermo Orozco Gómez que
me chamou a atenção para este problema. Ele
contava que fez o seu doutorado na Universidade de Harvard,
com uma equipe que desenvolvia na época o projeto
do programa educativo Vila Sésamo. O professor Orozco
não viu utilidade em aprender aquilo, convencido
de que no México e na América Latina jamais
haveria condições de produzirmos um programa
daquele tipo. Certo de que o papel reservado a nossos povos
era o de receptores dos produtos norte-americanos, resolveu
dar prioridade, na sua formação, ao desenvolvimento
de uma metodologia para avaliar como estes programas eram
recebidos, e para agir na educação dos povos
a partir deste conhecimento. A partir daí tornou-se
um especialista em recepção.
Tenho
muito respeito pelo trabalho do professor Orozco-Gomes,
mas acho que sua opção foi uma questão
muito mais de vocação pessoal do que de um
condicionamento determinado pela divisão internacional
do trabalho. O México, tanto quanto o Brasil, é
um grande exportador de produtos culturais, especialmente
de produtos televisivos. Por isso perguntei a ele se no
meu caso, e no de meus alunos de jornalismo, que temos intenção
de atuar no pólo da produção, deveríamos
seguir o mesmo caminho que ele. Ele respondeu que, obviamente,
não. No entanto, os estudos de recepção
tem sido passados a nossos alunos desvinculados da informação
sobre estas preocupações que os geraram, e
sem as perguntas que se propuseram a responder. De outra
maneira, seriam recebidos de maneira mais crítica
e mais produtiva, confrontados às perguntas de quem
vai atuar como profissional da mídia, e não
como antropólogo ou sociólogo.
Quando
não há relação das teorias estudadas
com as perguntas suscitadas pelo objeto de estudo, não
há metodologia que se sustente. E o grande problema
de nossas pesquisas é a falta de consistência
metodológica. A maior parte dos estudantes de pós-graduação
não se dá conta é de que o apelo à
interdisciplinariedade, em vez de resolver, apenas agrava
o problema. Se não dominamos os fundamentos de uma
disciplina cujo conceito utilizamos, a possibilidade de
dominarmos os fundamentos de inúmeras disciplinas
é muito mais remota. Daí que só consigamos
produzir ensaios e não ciência propriamente
dita.
Para
nós jornalistas, a produção científica
é um desafio maior ainda por não se tratar
de aprender o método, como pensam os positivistas,
mas de trocar de método, na medida em que o jornalismo
também é um método de conhecimento.
Além de aprender um método novo, temos que
nos descondicionar de toda uma internalização
do antigo, dos critérios jornalísticos que
ajudam em muitos aspectos - como na hora da apresentação
dos resultados - mas que atrapalha em alguns momentos a
pesquisa científica. O critério jornalismo
tende sempre a "cercar" um fenômeno em sua
singularidade, considerando todos os aspectos a seu respeito.
As ciências, ao contrário, procuram, a partir
da visão particular de cada disciplina, definir leis
universais, generalizadas a partir do isolamento de uma
variável e não da consideração
do conjunto delas.
Nossos
critérios jornalísticos tendem a transformar
qualquer estudo científico numa grande reportagem.
Não há dúvida de que a reportagem é
um método de abordar a realidade que, em muitos aspectos,
não difere muito de algumas metodologias qualitativas
utilizadas nas ciências humanas, mas é preciso
saber delimitar as diferenças entre uma coisa e outra.
Também é de se discutir se a reportagem não
deve ser aceita como método, num trabalho acadêmico
na área de jornalismo, e eu acho até que deve.
Só não se pode confundi-la com ciência,
assim como não se pode chamar de ciência, embora
sejam formas rudimentares de teoria, os ensaios que tem
constituído quase toda a produção de
conhecimento em nosso campo.
Somente
quando nos capacitarmos a fazer ciência, desenvolvendo
metodologias adequadas às questões que nos
desafiam como pesquisadores de jornalismo, realmente vamos
estar produzindo uma teoria capaz de desvendar e de aperfeiçoar
a prática social e profissional representada pelo
jornalismo. E vamos nos dar conta de que esta prática,
tal como se pratica hoje, na verdade é composta por
uma constelação de teorias cristalizadas,
transformadas em técnicas pelo costume, cuja origem
teórica foi esquecida e não será recuperada
enquanto esta questão não for objeto de nosso
estudo. Neste momento vamos começar a superar nossa
dependência científica em relação
a outras áreas e outros países e, quem sabe,
começar a fornecer subsídios para a concepção
de um jornalismo que ajude também o país a
superar a dependência nas outras esferas em que se
manifesta.
http://www.professoresjornalismo.jor.br/noticias/palestra_meditsch.htm
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