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Problemas a superar na pesquisa em jornalismo.
Autor: Eduardo Meditsch, Professor da UFSC

Em recente entrevista à editora da Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, publicada pela Intercom, o representante da área junto à Capes, professor Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia, traça um quadro bastante lúcido da pesquisa brasileira na área da comunicação. Por um lado, ele constata um grande crescimento no volume desta pesquisa: em 1999, os treze programas de pós-graduação da área que já funcionavam no país declararam à Capes a realização de 476 projetos de pesquisa realizados por seus professores, 647 pelos doutorandos e 1489 conduzidas pelos mestrandos, totalizando 2612 projetos em andamento.

Apesar disso, Wilson Gomes ressalva que, não obstante estes números, "um diagnóstico sincero sobre a área constataria que em média estamos ainda distantes da consolidação e sedimentação do campo acadêmico e científico. Além disso, mesmo naqueles setores onde o campo está mais consolidado, dificilmente se pode creditar tal fato à pesquisa em comunicação realizada na área e no Brasil."

Sintoma disto – aponta o representante da área na Capes – é que o ensino básico de comunicação no Brasil depende fundamentalmente de bibliografia estrangeira ou proveniente de pesquisadores situados em outras áreas de conhecimento. Desta forma, grande parte do esforço de pesquisa de nossos doutores está em correr atrás do que já foi pesquisado em outros locais, em vez de perseguir conhecimento novo.

Wilson Gomes constata também que não há uma autêntica cultura de pesquisa científica na área, na forma de compreensões, hábitos e valores compartilhados. Não há parâmetros comuns nem instâncias legítimas que selecionem, acompanhem e avaliem a produção científica: é pesquisador quem se declara pesquisador, e é pesquisa o que esta pessoa declara ser pesquisa.

Neste contexto, não existe pesquisa cumulativa. Ou se desconhece o que foi feito antes, ou os dados são tão pouco confiáveis que nossos pesquisadores estão sempre começando do zero o conhecimento sobre um tema ou especialidade. Por outro lado, quando publicam seus trabalhos – e a maior parte das pesquisas declaradas à Capes não são jamais publicadas – não tem nenhum feedback, não recebem críticas dos pares, é como se tivessem encerrado o assunto.

Os próprios congressos da área não valorizam a pesquisa de ponta. As palestras e mesas redondas são espaços performáticos reservados às estrelas, para falarem de temas do momento e de interesse de um público amplo e não-especializado. As sessões dos grupos de trabalho, onde presumivelmente as pesquisas serão apresentadas e discutidas, colocam-se num nível hierárquico inferior, dispõem de um tempo exíguo e precisam compartilhá-lo entre pesquisadores sênior, mestrandos e bolsistas de iniciação científica. Por fim, a maior parte dos trabalhos apresentados são ensaios, e não artigos baseados em dados de alguma pesquisa científica, constata o representante da área na Capes.

Não foi por acaso que, quando convidado a apontar as maiores contribuições brasileiras à comunicologia latino-americana, Jesús-Martin Barbero lembrou-se do pedagogo Paulo Freire e do antropólogo Renato Ortiz, e de ninguém ligado à nossa comunicologia. É mais um sintoma de que "temos muito caminho ainda a percorrer", como adverte o professor Wilson Gomes.

Se pensarmos mais especificamente na pesquisa da sub-área de jornalismo, no Brasil ou na América Latina, não apenas confirmaremos todos os sintomas detectados por nosso representante na Capes como ainda um outro bastante alarmante: a quase totalidade dos produtos jornalísticos desenvolvidos ou reformulados nas últimas décadas pelas empresas de ponta da mídia brasileira basearam-se em pesquisa estrangeira ou copiaram produtos estrangeiros. Nem mesmo a pesquisa para o desenvolvimento de produtos, considerada "menor" no âmbito acadêmico, por se tratar mais de aplicação do que de geração de conhecimento, teve algum resultado relevante. O que nos leva a pensar que, pelo menos em relação ao jornalismo, não apenas tenhamos caminho a percorrer, como também seja possível que tenhamos perdido a rota.

Neste caso, reencontrá-la não será uma tarefa simples: romper a inércia que conduziu nosso campo de estudos à situação atual demandará um esforço coletivo da sub-área de jornalismo e um dispêndio considerável de energia para superar uma série de problemas específicos, além daqueles mais gerais que dificultam qualquer forma de produção científica em nosso país.

O problema de identidade: o tabu da comunicação

A tabela de classificação das áreas de conhecimento, utilizada pelas agências de fomento, reflete um conceito que ao longo da história incorporou dois tipos de saberes técnico-científicos, embora em nenhum momento faça esta distinção de maneira explícita, apenas a sugira. De um lado, temos as áreas originadas em disciplinas clássicas, como matemática, química, física, biologia, história, ciências sociais, filosofia, etc. De outro, as áreas associadas a práticas profissionais reconhecidas por demandar e reunir conhecimentos específicos de nível superior, tais como medicina, direito, administração, engenharia e educação.

A área de comunicação obviamente faz parte do segundo grupo, tanto que é classificada como "ciência social aplicada". Quando pensamos no jornalismo em particular, e não na comunicação social em geral, fica ainda mais evidente esta vinculação com uma prática social específica, com os conhecimentos aplicados e necessários ao exercício de uma profissão socialmente relevante, que demanda uma arquitetura complexa de formação, só atendida pela universidade.

No entanto, esta vinculação da área da comunicação às profissões que lhe deram origem é questionada pela própria área, tanto no debate sobre os seus objetivos quanto principalmente na sua prática teórica e de pesquisa. Há setores, grupos e escolas bastante fortes – senão os hegemônicos - dentro da área da comunicação, que expressam uma crescente autonomia em relação a estas profissões, afastam-se delas como foco de interesse em sua atividade científica e tem esta posição respaldada pelas agências de fomento, como Capes, CNPq e Finep, cujo corpo técnico assessor é representativo do que ocorre na área.

Porém, ao se desvincular de sua origem profissional, a área de comunicação não consegue alcançar a outra margem, não consegue se legitimar como disciplina científica diferenciada, não concebe um corte epistemológico inédito, não constrói um corpo teórico original, não desenvolve metodologias próprias, sequer consegue delimitar o seu objeto de estudo. Subsiste, desta maneira, avançando sobre os domínios das disciplinas vizinhas, como antropologia, sociologia, política, psicanálise, economia, filosofia, etc, sem submeter os resultados de suas pesquisas ao julgamento de quem de direito – os pares pertencentes aos quadros destas outras disciplinas, que poderiam avaliar a propriedade e o rigor de sua utilização.

A esta extrema liberalidade – pouco usual na atividade acadêmica – confere-se um álibi que tudo permite e a tudo absolve: a varinha mágica da interdisciplinariedade, que uma vez acionada, justifica qualquer coisa. A área da comunicação cria a interdisciplinariedade sem objeto definido e, sobretudo, sem disciplina: à margem de qualquer disciplina. Isto talvez explique porque os cientistas sociais, pedagogos e filósofos continuem sendo as principais referências teóricas de nossa área, em vez dos comunicólogos: eles foram formados em disciplinas de verdade.

O professor Luiz Martino, da UnB, que coordena o grupo de Epistemologia da Comunicação na Compós, tem apontado com muita propriedade o fato da identidade do campo da comunicação ser um tabu. É um tema de que normalmente se foge, se evita, ou pelo menos se tangencia. Justamente para enfrentar este tabu é que propôs a criação do grupo, que promete um debate instigante mas que é ainda muito recente para apresentar resultados palpáveis.

O Grupo de Epistemologia da Compós pode se tornar um forum privilegiado para delinear a identidade desta nova disciplina científica que se pretende criar com o nome de comunicação. Mas para isto vai ter que superar todos os obstáculos que tem impedido que a questão venha à luz, e que a mantém como um tabu. O primeiro dos desafios é garantir essa discussão num plano racional. Qualquer avanço no debate, por mais abstrato o nível em que seja mantido, tende a levá-lo a tocar em questões, problemas e interesses concretos, diante dos quais a racionalidade costuma sucumbir sob a defesa emocional dos diversos pontos-de-vista. Foi o que se viu acontecer há dois anos na disputa entre jornalistas e comunicólogos pela definição das diretrizes curriculares da formação profissional.

Hoje se sabe que o debate que ocorreu em 1998-99 no Brasil - aqui infelizmente desacreditado como uma mera disputa de grupos pelo poder, e bastante descaracterizado por uma série de brigas pessoais - estava também ocorrendo em outros locais, como Estados Unidos, Austrália e Portugal, e sobre as mesmas questões de fundo. O que nos leva a supor que os problemas da área acadêmica da comunicação, apontados por Wilson Gomes, Luiz Martino e também pelo debate recente sobre o ensino de jornalismo, em parte não sejam problemas nacionais nem regionais, embora estes também existam, mas sim questões mais gerais da área: mais profundas e mais difíceis de resolver.

O problema histórico: a dicotomia teoria-prática

A ruptura entre teoria e prática na área acadêmica da comunicação em toda a América Latina é bem fácil de situar: ocorreu na década de 70, a partir da atuação do Ciespal, que acabou conseguindo transformar todas as faculdades de jornalismo do continente em faculdades de comunicação social, com o objetivo de formar não mais jornalistas, nos moldes como estes profissionais são conhecidos no mundo ocidental, mas um outro tipo de comunicador, mais útil à política de contra-insurgência adotada no continente pelos Estados Unidos, dentro do espírito da Guerra Fria. Quando o Ciespal, na década de 80, sai da área de influência norte-americana e passa ter hegemonia de esquerda, afiançada pela social-democracia européia, a idéia do "comunicador popular de novo tipo" é mantida e aprofundada, principalmente na produção teórica emanada da entidade, embora com outro viés ideológico.

No entanto, esta teoria não responde às questões suscitadas pelas práticas profissionais a que as escolas dedicam a sua formação: jornalistas, publicitários, relações públicas, etc. Estas práticas passam a ser reproduzidas sem nenhuma reflexão a respeito, a não ser aquela que as nega, propondo a sua substituição pelo "comunicador de novo tipo", concepção que a maioria esmagadora das escolas - no caso brasileiro, a unanimidade - jamais colocou em prática.

A teoria, então, libertada do compromisso com a prática, vai definir arbitrariamente os seus caminhos, conforme os modismos intelectuais importados em cada época e as idiossincrasias dos seus produtores, diversificando-se a tal ponto que o único critério para dizer se uma pesquisa pertence ou não à área da comunicação é a vinculação de seu autor com um departamento ou faculdade de comunicação, por mais esotérica que seja a questão, o tema e a abordagem que se proponha a estudar.

Com a consolidação da pós-graduação na área, esta postura não só se institucionalizou como passou a se reproduzir. Os primeiros doutores, que definiram o que deveria ser a pós-graduação em comunicação, eram todos teóricos, já que a prática, apartada da teoria, não investia na titulação de seus professores. Quando estes últimos passaram a se integrar ao sistema de pós-graduação, agora como alunos dos teóricos que se titularam antes, eram incentivados a seguir o mesmo caminho de seus orientadores, e muitos passaram a desprezar o conhecimento da prática que os introduzira na vida acadêmica. Desta forma, a prática continuava mantida numa escala inferior da hierarquia.

Um outro fator histórico importante para explicar esta dicotomia foi a presença maciça de professores com formação em outras áreas, na definição dos caminhos teóricos da comunicação. Como qualquer área nova, seu núcleo original foi composto por cientistas oriundos de áreas afins que, por razões acadêmicas, pessoais ou profissionais, em algum momento de suas vidas interessaram-se pelo novo campo. É inegável a contribuição trazida à área por estes professores, ainda mais quando se constata que a maior parte das referências bibliográficas que utilizamos ainda hoje foi produzida em suas disciplinas de origem. Muito da reflexão sobre nossa atual inconsistência também se deve à formação e à capacidade crítica que estes professores trouxeram de fora de nossa área: basta dizer que Wilson Gomes tem formação em Filosofia, Luiz Martino em Sociologia e Nilson Lage em Lingüistica. Mas é igualmente provável que o controle, a longo prazo, exercido por professores oriundos de outras disciplinas, com preocupações e interesses os mais diversos, sobre uma área que não preza o seu objeto de estudo, foi um dos fatores que conduziu à reconhecida perda deste objeto.

Mais uma vez, este problema crucial não é nacional nem latino-americano. Por traz do Ciespal e das entidades congêneres que moldaram a área acadêmica da comunicação nos diversos quintais do terceiro mundo, estava a Unesco, que definia as suas políticas a partir de Paris, e que influenciou também a área acadêmica nos grandes centros.

O problema da legitimidade: a recuperação do objeto de estudo

A perda do objeto de estudo da comunicação é uma questão que tem sido apontada por vários autores desde o final da década de 80. No Congresso de reconstituição da Alaic, realizado em São Paulo em 1992, o venezuelano Antonio Pasquali e a brasileira Anamaria Fadul chegaram a definir a década anterior como "a década perdida" na pesquisa comunicológica, uma vez que tinha se afastado tanto do objeto de estudo que cada vez se sabia menos sobre a mídia no continente.

A questão da perda do objeto de estudo, a primeira vista, pode parecer que não diz respeito à pesquisa em jornalismo, na medida em que esta sempre se definiu em torno da clareza e da existência objetiva de seu objeto. No entanto, nos atinge na medida em que esta perda não é um extravio ocasional e inconsciente, na verdade é uma rejeição da mídia enquanto objeto digno de ser estudado. Nesta perspectiva, o jornalismo, que faz parte da mídia, também será menosprezado.

Cria-se nas escolas uma escala de valores segundo a qual a crítica da mídia, vista em sua exterioridade, é mais importante do que a compreensão da mídia, no seu funcionamento interno e na sua relação com o contexto. As faculdades de Comunicação do continente adotam uma postura que é típica de suas congêneres da área de Letras, que não formam escritores mas críticos literários. No entanto, a área da comunicação não consegue se livrar da tarefa de seguir formando jornalistas, publicitários, e outros profissionais para a mídia, até porque é esta função social que justifica a sua existência. Consegue se livrar apenas da obrigação de colocar a produção científica a serviço do aperfeiçoamento do ofício e da formação de profissionais competentes.

Uma vez estabelecida esta autonomia da produção teórica em relação à função social da universidade na área de comunicação, a descaracterização do objeto é inevitável, volatilizada na multiplicidade de interesses individuais de seus pesquisadores, grande parte deles, como referimos, originários de outras áreas acadêmicas e sem interesse particular pela mídia. A proposta de Jesus Martín-Barbero de abandonar os meios para se estudar as mediações é seguida ao pé da letra, principalmente no que se refere a sua primeira proposição, a de dizer adeus aos estudos de mídia, já que a segunda, de estudar as mediações, permite qualquer interpretação, conforme a idiossincrasia do pesquisador e os modismos intelectuais importados. Já que as mediações estão em tudo, a comunicação será qualquer coisa que eu queira ou que valha uma estada em Paris.

A partir deste momento, os estudos de mídia, e do jornalismo dentro destes, passam a ser uma sub-área secundária e quase marginal dentro das chamadas "ciências da comunicação". Uma análise das áreas de concentração, das linhas de pesquisa e das disciplinas estudadas em nossos cursos de pós-graduação deixa clara esta situação. A posição de inferioridade dos estudos de mídia e de jornalismo se reproduz com o desenvolvimento da pós-graduação e se institucionaliza com a criação das entidades acadêmicas da área, dominando também os critérios das agências de fomento à pesquisa, definidos por consultores representativos do meio acadêmico.

A perda, que na verdade é rejeição do objeto de estudo, desta forma afeta também quem dela não participa. O avanço dos estudos sobre o objeto - seja ele a mídia ou o jornalismo - fica limitado tanto com o desinteresse dominante na pós-graduação quanto com a parcela que lhe é destinada dos recursos já minguados de pesquisa. O resultado é que muitos pesquisadores com potencial acadêmico e interesse no objeto acabam cansando de navegar contra a correnteza, mudam o foco de suas pesquisas e vão contribuir com outras áreas. Persistir pode comprometer as melhores oportunidades de carreira, e para toda teimosia há um limite.

Por outro lado, é alentador o fato de termos conquistado algum espaço institucional, ainda que secundário, através dos Grupos e Núcleos de Pesquisa em Jornalismo das entidades acadêmicas, como a Intercom, a Alaic e mais recentemente a Compós. São espaços bem limitados no organograma das entidades mas, como observou Wilson Gomes, também são estes os destinados à toda a pesquisa de ponta: estamos em boa companhia. O aspecto mais negativo desta situação é que costuma significar tutela de fora, pelas forças hegemônicas nas entidades, o que atrapalha, se não impede, qualquer possibilidade de gestão autônoma destes núcleos e grupos e limita, com critérios alheios, o desenvolvimento científico das sub-áreas.

Na forma como a área acadêmica da comunicação está institucionalizada, o caminho natural dos estudos de jornalismo talvez fosse o da extinção. Mas ela não ocorre, porque o jornalismo é um objeto de tanta relevância social, cultural e acadêmica que sempre reaparece em estudos interessantes, seja na área da comunicação, seja em áreas afins como nas ciências humanas e da linguagem. Mas, se a extinção não ocorre, a falta de legitimidade nos traz um problema adicional de dispersão do conhecimento produzido sobre jornalismo: grande parte da pesquisa é feita e discutida em outras áreas e, mesmo nos congressos de comunicação, mais da metade dos estudos sobre jornalismo continuam a ser apresentados fora dos grupos de jornalismo. As interfaces do jornalismo são muitas, e os autores destes trabalhos procuram os grupos com mais prestígio ou contatos mais interessantes.

Aliás, a bibliografia de referência em teoria do jornalismo, assim como a mais geral da comunicação, continua sendo produzida fora do país e em grande parte fora da área. Isto faz com que nem se adequem a nossa realidade. O que nos traz um problema adicional: não basta o objeto de estudo ter legitimidade para legitimar nossa pesquisa própria. A conquista da legitimidade científica, e a reivindicação do reconhecimento acadêmico que dela deve recorrer, passa também pela solução dos problemas relacionados à forma como estamos estudando o objeto. É sempre bom lembrar que as críticas aos problemas da produção científica em comunicação, apontados por Wilson Gomes, também se aplicam a nós.

O problema da cientificidade: das perguntas à superação do ensaio teórico

Paulo Freire costumava enfatizar que todo conhecimento tinha por trás uma pergunta, e criticava a pedagogia tradicional por responder perguntas que não tinham sido feitas, deixando em segundo plano as perguntas que os educandos tinham para fazer. É essa postura pedagógica - e a pedagogia, dizia Freire, é uma teoria do conhecimento posta em prática - que dá espaço tanto para a dicotomia teoria-prática quanto para a eventual falta de sentido na teoria utilizada em muitas teses e dissertações sobre jornalismo.

Quando se lê os capítulos teóricos destas teses e dissertações, normalmente os introdutórios, a impressão que fica é que os mestrandos e doutorandos estão pagando um tributo aos interesses individuais de pesquisa de seus professores e orientadores, muito mais do que buscando fundamentos pertinentes para resolver o problema que a pesquisa propõe. As teorias são então expostas como mera descrição de conceitos, que nada acrescentam ao trabalho e, pelo contrário, tornam-se um entrave ao desenvolvimento de qualquer metodologia consistente. É o "balé de conceitos", como diria Paulo Freire.

Como somos educados na Universidade a reproduzir este balé - e aí o problema não é apenas da área de jornalismo ou de comunicação, embora em nosso caso ele seja agravado por uma série de fatores já expostos - dificilmente estudamos estas teorias realmente, produtivamente. Dificilmente nos indagamos sobre as perguntas fundamentais que as originaram e que elas vieram a responder, e se estas perguntas são as mesmas nossas ou se conservam o interesse ainda hoje, quando a ciência já avançou em muitos pontos.

Recentemente, num Congresso regional em Goiânia, ouvi um depoimento do professor mexicano Guillermo Orozco Gómez que me chamou a atenção para este problema. Ele contava que fez o seu doutorado na Universidade de Harvard, com uma equipe que desenvolvia na época o projeto do programa educativo Vila Sésamo. O professor Orozco não viu utilidade em aprender aquilo, convencido de que no México e na América Latina jamais haveria condições de produzirmos um programa daquele tipo. Certo de que o papel reservado a nossos povos era o de receptores dos produtos norte-americanos, resolveu dar prioridade, na sua formação, ao desenvolvimento de uma metodologia para avaliar como estes programas eram recebidos, e para agir na educação dos povos a partir deste conhecimento. A partir daí tornou-se um especialista em recepção.

Tenho muito respeito pelo trabalho do professor Orozco-Gomes, mas acho que sua opção foi uma questão muito mais de vocação pessoal do que de um condicionamento determinado pela divisão internacional do trabalho. O México, tanto quanto o Brasil, é um grande exportador de produtos culturais, especialmente de produtos televisivos. Por isso perguntei a ele se no meu caso, e no de meus alunos de jornalismo, que temos intenção de atuar no pólo da produção, deveríamos seguir o mesmo caminho que ele. Ele respondeu que, obviamente, não. No entanto, os estudos de recepção tem sido passados a nossos alunos desvinculados da informação sobre estas preocupações que os geraram, e sem as perguntas que se propuseram a responder. De outra maneira, seriam recebidos de maneira mais crítica e mais produtiva, confrontados às perguntas de quem vai atuar como profissional da mídia, e não como antropólogo ou sociólogo.

Quando não há relação das teorias estudadas com as perguntas suscitadas pelo objeto de estudo, não há metodologia que se sustente. E o grande problema de nossas pesquisas é a falta de consistência metodológica. A maior parte dos estudantes de pós-graduação não se dá conta é de que o apelo à interdisciplinariedade, em vez de resolver, apenas agrava o problema. Se não dominamos os fundamentos de uma disciplina cujo conceito utilizamos, a possibilidade de dominarmos os fundamentos de inúmeras disciplinas é muito mais remota. Daí que só consigamos produzir ensaios e não ciência propriamente dita.

Para nós jornalistas, a produção científica é um desafio maior ainda por não se tratar de aprender o método, como pensam os positivistas, mas de trocar de método, na medida em que o jornalismo também é um método de conhecimento. Além de aprender um método novo, temos que nos descondicionar de toda uma internalização do antigo, dos critérios jornalísticos que ajudam em muitos aspectos - como na hora da apresentação dos resultados - mas que atrapalha em alguns momentos a pesquisa científica. O critério jornalismo tende sempre a "cercar" um fenômeno em sua singularidade, considerando todos os aspectos a seu respeito. As ciências, ao contrário, procuram, a partir da visão particular de cada disciplina, definir leis universais, generalizadas a partir do isolamento de uma variável e não da consideração do conjunto delas.

Nossos critérios jornalísticos tendem a transformar qualquer estudo científico numa grande reportagem. Não há dúvida de que a reportagem é um método de abordar a realidade que, em muitos aspectos, não difere muito de algumas metodologias qualitativas utilizadas nas ciências humanas, mas é preciso saber delimitar as diferenças entre uma coisa e outra. Também é de se discutir se a reportagem não deve ser aceita como método, num trabalho acadêmico na área de jornalismo, e eu acho até que deve. Só não se pode confundi-la com ciência, assim como não se pode chamar de ciência, embora sejam formas rudimentares de teoria, os ensaios que tem constituído quase toda a produção de conhecimento em nosso campo.

Somente quando nos capacitarmos a fazer ciência, desenvolvendo metodologias adequadas às questões que nos desafiam como pesquisadores de jornalismo, realmente vamos estar produzindo uma teoria capaz de desvendar e de aperfeiçoar a prática social e profissional representada pelo jornalismo. E vamos nos dar conta de que esta prática, tal como se pratica hoje, na verdade é composta por uma constelação de teorias cristalizadas, transformadas em técnicas pelo costume, cuja origem teórica foi esquecida e não será recuperada enquanto esta questão não for objeto de nosso estudo. Neste momento vamos começar a superar nossa dependência científica em relação a outras áreas e outros países e, quem sabe, começar a fornecer subsídios para a concepção de um jornalismo que ajude também o país a superar a dependência nas outras esferas em que se manifesta.

http://www.professoresjornalismo.jor.br/noticias/palestra_meditsch.htm

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